Sunday, November 18, 2007

 

Seguindo os Seus passos...

Seguir os passos de Jesus na terra que foi a sua é uma experiência perturbadora. Da consolação à inquietude, de tudo um pouco se experimenta. A nossa alma torna-se numa caixa de eco poderosíssima das Suas palavras, recordadas nos Evangelhos. A sensação de ver o que sempre se ouviu e de imaginar a “composição do lugar” no próprio sítio é uma experiência inolvidável. Mas abana tudo. Por isso, quando ao peregrinar na Terra Santa se vive este saudável sismo interior, torna-se depois difícil alinhavar, em algumas palavras, o que se sentiu. O essencial não cabe num texto.

Mesmo assim, regressemos ao mar da Galileia. Contornemos e bordejemos as suas águas, para reencontrar Jesus na sua vida pública, irradiando encontros e parábolas, a partir de Cafarnaum. Sem esconder preferências, não consegui tornar presentes esses momentos sem ser através de Pedro. Esse imperfeito seguidor, simultaneamente tão próximo mas tão melhor que nós, ajudou-me a ver o Mestre, a partir da minha experiência de pecador empedernido. E daí perceber a gratuitidade da misericórdia e do perdão. Com ele vivi o momento da reconfirmação à beira do lago, depois da tríplice traição de não O conhecer. Experimentei o medo ao andar pelas águas, que me leva a afundar ou, só por O chamar, como consigo recuperar o pé. Senti a multiplicação que Ele faz, a partir do nada que sou. Mas também obedeci ao voltar a lançar as redes, mesmo depois de não apanhar nada, só porque Ele diz. E, finalmente, revi-me a dizer, baixinho, envergonhado: “Senhor para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna.”

Na despedida de Tiberíades, ficou o último recado. Caprichosamente, a chuva não parava. Sobre o mar da Galileia, coexistiam aguaceiros abundantes com raios de sol que rompiam as nuvens, fazendo brilhar as águas. No Monte das Bem-Aventuranças, gorava-se então a possibilidade da missa evocativa decorrer com o horizonte largo a partir do qual o Mestre terá olhado aquelas águas, entre cada pista dada para a felicidade. Era poesia demais. Ele preferiu, desta vez, outra metáfora. Com contrariedades, como na vida, para ter a certeza que o nosso caminhar será sempre entre a chuva e o sol, nem sempre pela ordem preferida ou conveniente.

Depois veio o deserto. Entre um Jordão que se encolheu perante a humildade do baptismo do Senhor e um monumental Mar Morto, que ilustrava uma água sem vida à semelhança da nossa vida sem a Água viva, fiz-me mais peregrino. Mas fechado entre os montes, no terreno das tentações, percebi a secura das pedras e pó que em que se vai transformando a minha vida cada vez que perco o horizonte do Céu. E com essa sombra chega sempre a vontade de desistir.

Mas, mais tarde, a “vigília contra todas as desistências”, ao lado do Jardim das Oliveiras, veio reinstalar a esperança. No silêncio orante de Gethsemani, ecoa o apelo do nosso Bispo. Contra todas as desistências, repete. As que nos deixam adormecer nos momentos cruciais que antecedem cada Paixão ou as que geram desespero depois de O entregarmos com um beijo hipócrita.

Chega então a Via-sacra, mas já não como caminho da desistência, nem como momento de desespero. É o reencontro com Ele, pisando aquelas pedras de Jerusalém, num roteiro de persistência, de quem faz a Sua vontade: “vem, carrega a tua cruz, e segue-Me”.

E no fim, quase conseguimos ressuscitar com Ele. Faltava, no entanto, alguma coisa que só em Emaus, encontrei: ao partir o Pão, reconheceram-No. E reconhecendo-O, puseram-se de novo a caminho para anunciar o que lhes tinha acontecido. E nós, de novo peregrinos, mas agora para O anunciar. Vivo e partindo o Pão.

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